Corazón

“O coração tem razões que a própria razão desconhece”

Pascal

Published in: on 29 de julho de 2013 at 19:32  Deixe um comentário  

crônica fluminense

Há cerca de uma semana, cheguei ao Rio de Janeiro para fazer um Curso de Verão no IMPA, localizado no Jardim Botânico. Estou morando no Maracanã, a duzentos metros do Estádio, e ontem vivenciei uma desventura digna de relato.

Eu e mais dois amigos, voltando de nosso curso, trajeto de cerca de uma hora e meia, permanecemos ilhados em um posto de gasolina por duas horas, a quinhentos metros de casa. Todos com sono, fome, sede, frio e, pra completar, vontade de ir ao banheiro.

O posto de gasolina abrigava, além de nós três, policiais militares, moradores de rua, transeuntes e taxistas. Os moradores de rua, um pouco alterados – provavelmente por causa da chuva – bradavam contra o santo: “Ô, São Pedro, faz isso comigo não! Com essa sua marolinha eu chego na Mangueira duas da manhã!”; os transeuntes, quando a chuva abaixava, trafegavam em fila no meio da rua vazia, construindo um panorama digno de “The Walking Dead”; os taxistas diziam-se indispostos a uma corrida em que lhes fosse pagado o dobro da quantia, e o rádio anunciava que Eduardo Paes estava na rua “monitorando” as chuvas.

Enquanto isso, eu tentava fazer amizade com os policiais, visando uma carona: “E aí, a coisa tá preta lá pro lado da Saens Pena? Esse aí é um três oitão? Se eu der um soco no meu amigo eu vou pra delegacia? Porque com essa chuva prefiro ficar por lá mesmo!”. Acho que o moço foi com a minha cara, e até se dispôs a dar uma carona, mas disse que chegaríamos muito mais rápido se fôssemos a pé.

Tomamos coragem e nos juntamos à peregrinação no meio da rua. A cem metros, a rua estava coberta de água, com direito a correnteza e a leptospirose. Seguimos em frente, nadando crawl, borboleta, peito e cachorrinho. Finalmente chegamos em casa.

Despreparados, havíamos deixado as janelas abertas, afinal, Rio quarenta graus, não? Os notebooks, livros e algumas camas estavam cobertos de água. No fim das contas, tudo voltou a funcionar (pelo menos tudo que tentamos ligar até agora).

O momento que sucedeu foi de reflexão: imaginei as pessoas que passam tantas vezes por essa experiência, que acaba por se tornar algo lamentavelmente rotineiro. Naquelas que, mesmo com as portas e janelas de suas casas fechadas, acabam por perder absolutamente tudo que tem.

Não pude deixar também de considerar o grande público que será recebido durante a Copa do Mundo. É visível que gastar milhões em estádios não é suficiente quando as redondezas de um estádio do porte do Maracanã não possui infraestrutura para comportar a chuva. Mas tudo bem, em Junho não chove na cidade mesmo!

Agora, resta esperar. Estou confiante, acho que tudo vai ficar bem. O prefeito está zelando por todos nós.

Published in: on 15 de fevereiro de 2013 at 16:57  Deixe um comentário  

Minha Quinta-Feira de Cinzas

Ontem de noite fui jogar futebol americano na Praia de Botafogo, em frente à Baía de Guanabara. Já era tarde, cerca de nove horas da noite, e não havia mais ninguém por lá, com exceção do nosso grupo.

Estávamos dividindo os times, e eu estava tentando aprender as regras: pra onde correr, quando se jogar no chão, e esse tipo de coisa que não faz muito sentido – mas que acaba sendo divertido. Foi quando se aproximou de nós um garoto novo, um metro e cinquenta; magro, mas saudável. Ligeiramente sujo. 

Ele ficou calado, mesmo estando entre nós. Lembrei-me de quando eu era pequeno: sempre que via pessoas jogando futebol na praia, ou no parque, pedia para me juntar a eles, e ficava feliz quando era bem recebido. Tentei fazer o mesmo que faziam por mim: “E aí, quer jogar?”. “Quero. O que vocês vão jogar?”. “Basquete”, eu respondi com um meio sorriso. O garoto bateu os olhos na bola e riu. “Futebol Americano”, desmenti. “Sabe jogar?”. Ele disse que sabia. “Tem força para arremessar esse campo inteiro aqui?”. Ele fez um gesto positivo com a cabeça, sorrindo.

“Qual o seu nome?”, perguntei. “Matheus, e vocês?”. Apresentamos todo mundo, explicamos mais ou menos como funcionava, e começamos a jogar. O garoto parecia feliz. Ninguém sabia jogar nada direito, mas o Matheus até que levava jeito. Descobri que ele tinha 13 anos, e o moleque me deu 15, só porque não tenho barba! 

Depois do jogo estávamos cansados, e nos dirigimos à Rua Voluntários da Pátria. Compramos água, mate, refrigerante. O garoto estava olhando. “O que você quer beber?”, perguntei. “Pode ser uma coca”. Comprei uma coca para ele e começamos a conversar. O Matheus tinha fugido de casa há 3 dias e dormido na rua todo esse tempo. Andava de ônibus pedindo carona e só podia voltar se levasse dinheiro pra casa. “Essas são as regras. Minha mãe não gosta de mim”. Perguntei se ele ganhava o dinheiro necessário. “Ganho sim. O jeito mais fácil é assim”, e fez um gesto com a mão, como se estivesse apanhando algo. “Assim como?”, retruquei. “Pegando coisa da mão dos outros”, ele respondeu hesitante. Fiquei ligeiramente chocado. 

Tentei convencê-lo de que não era a coisa certa a se fazer, nem a mais sensata, nem a mais justa, nem a mais inteligente. Ele pareceu constrangido, como se o discurso de repreensão o tivesse atingido, e acabamos mudando de assunto. Acabei conseguindo convencê-lo de voltar para Bonsucesso, onde mora com a mãe.

Na hora da despedida, ganhei um abraço espontâneo. “Gostei mais de você”, ele sussurrou. Confesso que fiquei feliz, mas durou pouco. Voltei a pensar em quantos Matheus existem por aí. Garotos amigáveis, de bom coração, com toda sua ingenuidade e inocência destruída pela família – quando existe uma –, ou cuja vida é apresentada à realidade de maneira extremamente cruel. Infelizmente, acho que os capitães da areia estarão sempre presentes. O buraco é muito mais embaixo.

Published in: on 15 de fevereiro de 2013 at 16:56  Deixe um comentário  

Às vezes devem…

Às vezes devemos tomar decisões totalmente anti-intuitivas, doloridas, e deixar nosso egoísmo de lado. Sim, deixar nosso ego de lado. Dói

Published in: on 16 de setembro de 2012 at 23:38  Comments (1)  

Tudo a perder

“É … engraçado
As vezes a gente sente, fica pensando
que está sendo amado, que está amando
e que encontrou tudo que a vida podia oferecer.
E em cima disso, a gente constrói os nossos sonhos

os nossos castelos
e cria um mundo de encanto onde
tudo é belo
até que a mulher que a gente ama
vacila
e poe tudo a perder, e poe tudo a perder.” (Tim Maia)
Published in: on 4 de agosto de 2012 at 20:35  Comments (1)  

Dama da Noite

Horácio encarava fixamente o infinito azul que lhe cercava, coberto por pingos prateados e brilhantes. A brisa refrescante lhe encobria os cabelos, e o cheiro adocicado da Dama da Noite relembrava o aroma peculiar feminino, capaz de instigar o mais cambaleante dos homens. Um gosto amargo lhe subia à boca, enquanto os últimos 15 minutos se passavam intensamente pela sua mente, como se pudessem compor um monólogo interminável.

A discussão que tivera não lhe agradara – a não ser pelo toque de inspiração que lhe fornecera – e com certeza não era a melhor maneira para terminar uma noite. Horácio sentia como se a oposição fosse entre três pessoas, e não duas: ele, ela e ele. Ele contra ela porque ele a odiava; ele contra ele porque ambos sabiam que ela não deveria estar entre amigos de tão longa data; e ele contra ela porque ele a amava. [confuso?]

No instante em que uma resposta parecia vir à tona, uma gota de chuva pingou em sua testa. [continua]

Published in: on 14 de fevereiro de 2012 at 1:55  Deixe um comentário  

Resposta ao tempo

Horácio sentia uma agonia subindo-lhe pelo corpo, empurrando seu coração pela boca. Sentia aquela mão paradoxal, que já o havia acariciado por muitas vezes, causando as sensações mais exorbitantes que já sentira, mas que agora lhe causava os piores sentimentos. Não sabia se havia feito a coisa certa, ou a menos errada. Tudo que sabia é que não podia mais voltar atrás. Ele havia pensado muito no que fazer. Pensara deveras, e o tempo consumira todas as oportunidades. Horácio parou, e olhou ao seu redor. Parou.

Published in: on 20 de novembro de 2011 at 20:30  Comments (3)  

Tempo Sem Tempo

Vê se encontra um tempo
Pra me encontrar sem contratempo
Por algum tempo
O tempo dá voltas e curvas
O tempo tem revoltas absurdas
Ele é e não é ao mesmo tempo
Avenida das flores
E a ferida das dores

E só então
De sopetão
Entro e me adentro no tempo e no vento
E abarco e embarco no barco de Ísis e Osíris
Sou como a flecha do arco do arco-íris
Que despedaça as flores mais coloridas em mil fragmentos
Que passa e de graça distribui amores de cristais, totais, sexuais, celestiais
Das feridas das queridas despedidas
De quem sentiu todos os momentos

(Zé Miguel Wisnik)

 

Published in: on 14 de novembro de 2011 at 0:04  Comments (2)  

Sem título

“E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”
(Queirós, Eça de. O primo Basílio. 15ª edição, São Paulo: Ática, 1994, p. 134)
Published in: on 1 de novembro de 2011 at 21:18  Deixe um comentário  

Feito inatingível

Senti, sinto, sentirei
Tantas dores, tantas mágoas
Algumas que até passavam
Outras que vinham e voltavam
Eu vi, vivi e senti

Hoje, mais além
Não posso dizer que todas superei
Pois algumas ainda provocam
Desgosto, amor, angústia
Saudade, arrependimento, paixão

Será que errei, me pergunto
Ou será que tentei, mas fracassei?
Fui eu consumido pelo desejo
[A ponto de quanto mais tentar agarrá-la
Mais seu olhar escorregar, buscando a segurança do luar?]

Fiz do atingível, inatingível?
Ou foi tudo sempre platônico, impossível?
Era pra acontecer?
Ou serviu apenas para provocar, em meu paladar
A insaciedade, o desejo?

Todos já sentiram, sim
Desejos, angústias
Mas nem todos fizeram, de fato
Do atingível, inatingível

[(música, poema?) Em construção]

Published in: on 13 de outubro de 2011 at 2:44  Comments (1)