Reflexos de Sociedades

 17h46min: todos já haviam saído correndo pelo corredor, exceto por Denis e Paulo que permaneciam na sala . Aquele já havia arrumado seu material, mas esperava por este, que derrubara suas canetas no chão e estava meio atrapalhado para se arrumar. Deveriam pegar o metrô e ir até a rua Machado de Assis, onde moravam.

Mecanicamente traçaravam o percurso de todos os dias: atravessaram o portão laranja-amarelado da escola e seguiram pela esquerda; após cerca de dois minutos de caminhada, já estavam descendo a escada do metrô. Um casal discutindo passara por eles. O barulho exterior acentuava o silêncio entre os dois: não tinha havido nenhuma conversa entre os dois desde que o sinal tocara. Denis resolveu quebrar o silêncio.

- Paulo…

- Oi Denis. – respondeu Paulo sem muito entusiasmo. Parecia reflexivo.

- O que é uma mulher completa para você? É claro que ela tem de ter defeitos, mas…como é a mulher que você busca? As pessoas têm de escolher os defeitos que toleram umas na outras.

- Meu querido amigo….. – Paulo parecia surpreso. Não esperava por uma pergunta dessas. – Essa pergunta não pode ser respondida simples e momentaneamente. Em primeiro lugar você tem de conhecer a pessoa, e ver se a companhia dela lhe agrada. Eu não posso fazer uma ficha e sair por aí procurando por uma pessoa que encaixe-se nos padrões da mesma.

- Sim… e você poderia me responder uma coisa? Por que você me tolera?

- Denis. Você é o meu melhor amigo, mas vamos lá: para alguns um defeito, para outros não: Você é muito questionador. E eu gosto muito disso em você. Às vezes você é meio leviano,  julgador. Mas isso também pode ser fruto da sua grande curiosidade.

- E sua família? Você briga tanto com seu irmão, às vezes fica bravo com seus pais….mas continua tudo numa boa…Nada parece passar do limite!

- Denis, nós não podemos guardar rancor. Minha família é minha família e final de papo. Eu devo muitas coisas a meus pais, meus avós… Meu pai e minha mãe me deram não só a luz da vida, como também carinho e liberdade para saber como enfrentar meus problemas.  Meu irmão me dá felicidade e diversão, talvez até mesmo com nossas brigas. Todos somos companheiros uns dos outros. Não podemos nos desunir. A mesma coisa com você. Em certos momentos temos nossas desavenças, mas já somos amigos há 14 anos! E um catalisa o outro, com novos conhecimentos e etc.

Os amigos já estavam quase na metade do caminho.

Paulo prosseguiu:

- As coisas são superadas. Basta querer. Por exemplo, Denis, estou observando aquele casal desde que entramos no metrô.

Paulo apontou para um rapaz com uma pele gélida e cabelos que pareciam  fios de ouro jogados para trás formando um topete e uma mulher morena com cabelos pretos como a escuridão de um eclipse. Ela usava um batom bem vermelho e suas unhas eram pintadas desta mesma cor. Eles acariciavam-se com tanta sutileza e amor que estava muito claro que um adorava ao outro.

- Assim que descemos a escada eu os vi discutindo. Agora veja. Tudo está superado. É claro que há pessoas também que não conseguem superar os problemas e permitem que os mesmos as consumam. São as famosas pessoas rancorosas e orgulhosas. Essas pessoas ficam tão consumidas e desesperadas internamente que podem apresentar graves problemas.

- Entendi Paulo. Muito obrigado por ser tão paciente comigo. Posso lhe fazer mais uma pergunta?

- Claro Denis. – Paulo respondeu.

- Bem… – Denis olhava para um rapaz com muitos piercings, brincos e tatuagens. Ele tinha o cabelo rosa todo arrepiado e a pele branca como a neve. Estava escutando música. – O que você acha que levou aquele moço a estragar todo o seu corpo…A FAZER O QUE FEZ COM SUA VIDA?! Eu não consigo imaginar como tais pessoas conseguem ter coragem de fazer isso! Mesmo que o rapaz esteja na mais profunda depressão ou com o maior dos problemas!

- Denis, Denis… E se esse foi o modo que ele achou de sair dessa depressão, de fugir desse problema?! O que eu falei não é uma coisa certa de se fazer. Não adianta simplesmente virar as costas para algo e fingir que esse algo não existe. Isso é irreal e é tamanha irresponsabilidade. Mas certas pessoas não têm senso crítico com relação consigo mesmo e acabam fazendo besteiras. Esse também pode ser o modo que ele achou para adaptar-se em seu grupo social. Creio que o indivíduo se adapta a muitas coisas e é capaz de fazer muitas loucuras para ser aceito.

- E por que ele escolheu ESSE grupo social? – contra-atacou Denis

- Talvez ele não tenha sido aceito em outros grupos, talvez não se encaixava. Mas nós não podemos julgá-lo com tal senso crítico. Isso não cabe a nós, mas sim a ele. Algum dia ele irá cair em si e perceber o que realmente está fazendo. Há também a possibilidade de ele estar totalmente consciente do que está fazendo, mas eu acho muito difícil que não haja um bom motivo para que ele tenha feito isso.

O perfume de dama-da-noite já começava a ser soltado pelas mesmas: o cheiro doce enalava pelas fossas nasais doa garotos como um enólogo saboreia vinhos. O cheiro era delicioso. Havia muitas plantas dessa espécie na rua deles, o que os levou a perceber que já desciam a rua de suas casas. O tempo parecia que passara mais rápido com essa conversa. Ambos estavam muito intrigados. 

Passou um homem por ambos, e Paulo disse: 

- Esse homem, Denis. Você o viu?

- Sim, normal. O que há? 

- Ele parece bem normal sim. Mas ele pode ter tudo o que aquele sujeito punk do metrô tem, só que dentro dele. Suas emoções podem estar confinadas dentro de si e ele pode sentir-se aflito a cada passo que dá. Que tipo de reação você acha que é pior? 

- Acho que nenhuma das duas. A melhor coisa é tentar resolver seus problemas e superá-los. Na minha opinião, aqueles homens perderam para seus problemas. O que deveria ser uma lição, tornou-se uma metamorfose tanto interna, quanto externa.

- Você está começando a entender. O modo de agir dessas pessoas é apenas um placebo para a realidade. Acho que o remédio deva ser encarar a realidade e procurar ajuda, mas de modo algum virar as costas.

A noite já havia caído e as estrelas já brilhavam no alto do céu.

Paulo já havia alcançado sua casa, e Denis, despedindo-se de seu amigo, satisfeito com a conversa, seguiu em frente.

Descendo para sua casa, um homossexual passou por sua frente. Já não havia mais dúvidas. Poderia ser a maneira que encontrou para seguir em frente. O viver é instintivo e cada um acha um modo para conseguir fazê-lo. Não cabe a nós o julgamento se a maneira escolhida é boa ou ruim.

 

Por Henrique Vaz

Punk

 

 

Publicado em: às 11 de janeiro de 2009 em 20:24  Comentários (29)  
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